Zema inicia mandato criando armadilhas para a própria administração

Política de economia “grão em grão” ameaça engessar a máquina do Estado ao indispor servidores e concentrar as decisões em poucas mãos

 

GOVERNADOR DE MINAS, ROMEU ZEMA

As primeiras decisões do novo governador de Minas, Romeu Zema, são tão superficiais e simplórias como o seu brevíssimo discurso de posse (se é que se pode chamar de discurso as 305 palavras que pronunciou causalmente na ocasião). O decreto inaugural promoveu a exoneração em massa nos cargos comissionados. É de praxe renovar tais cargos, para permitir a alternância entre os perdedores e vitoriosos nas urnas. O próprio Pimentel já limpou a área no seu último dia de mandato demitindo cerca de 4 mil RAs (cargos de recrutamento amplo, nomeados livremente). Mas Zema foi bem mais além: cortou mais 6 mil comissionados, incluindo na faca os RRs ou cargos de recrutamento restrito a servidores de carreira (neste caso não há demissão mas perda do status de gerência/chefia que agrega em média R$ 1.800 ao salário). No total, foram cortados uns 10 mil dos cerca de 13 mil cargos.

Outras decisões de Zema mostram preocupação ou mesmo obsessão com austeridade nos gastos. Ele reduziu à metade as secretarias. Deixou de ir à posse de Bolsonaro para não usar avião estatal (não havia voos comerciais em horários compatíveis com a programação de sua posse segundo disse). Também vai doar o salário e dispensar a residência oficial. Coisas assim. Na 1ª entrevista à TV como governador, defendeu a necessidade de poupar até migalhas. Argumentou que “de grão em grão a galinha enche o papo”.

A política do “grão em grão” pode dar exemplos aos servidores do Estado e demais poderes de postura austera com os gastos públicos. Também pode agradar o senso comum. Mas dificilmente terá impacto relevante nas contas estaduais. Tome-se o caso dos comissionados: apesar de alto, o corte parece irrisório para uma folha com 376 mil servidores. Pimentel disse certa vez que a economia produzida pelo corte desses cargos seria irrelevante diante dos ônus políticos para a administração. E ele pode ter razão. Vários cargos RAs terão que ser ocupados novamente; é impossível governar sem número mínimo deles. Também muitos RRs são indispensáveis ao funcionamento da máquina; aliás, já neste fim de semana o governador já começou a reconduzir dezenas de comissionados. E aqueles servidores que perderem definitivamente as suas chefias (ou o acréscimo salarial decorrente) terão baixa motivação para trabalhar e alta disposição para greves ou protestos.

 Também o corte de secretarias pode ser uma economia porca, que produz muitos problemas para poupar pouco dinheiro. O primeiro escalão de Zema não poderia ser mais enxuto: 20 pessoas no total (12 titulares de secretarias temáticas e mais 08 cargos de comando) para administrar uma máquina que compreende 67 unidades orçamentárias independentes, incluindo todos os órgãos do Estado. É pouco cacique para muitas tribos. Para economizar alguns salários, Zema está concentrando poder de decisão em poucas mãos e sobrecarregando sua equipe de secretários, em sua maioria pessoas sem maior experiência no setor público e que nunca trabalharam juntas antes.

 A política do “grão em grão”, apesar do efeito moral, não fará diferença no déficit do Estado, que pode chegar a R$ 30 bilhões agora e a R$ 100 bi em 04 anos segundo a nova equipe da Fazenda. Na sua posse Zema apontou a renegociação da dívida como uma das principais iniciativas para sanear as contas. Isso sim faria uma baita diferença; o acordo com a União é crucial para o sucesso do ajuste fiscal mineiro. Todavia, para poupar uns trocados com combustível, Zema preferiu não ir à posse de Bolsonaro e perder uma grande oportunidade para se enturmar com quem irá negociar a salvação do seu governo e do estado.

O novo governador se agarra a detalhes, miudezas. Com isso vai criando armadilhas para a própria administração, que já começa sob o risco de engessamento por boicotes de servidores e pelo acúmulo de decisões por poucas pessoas. O caminho adotado até agora é tão pouco inteligente que parece mais um improviso da turma, na falta de um plano organizado de ação. O foco em coisas pequenas, longe de configurar uma estratégia, pode ser apenas reflexo de insegurança e falta de traquejo. 

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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