”Tá lá o corpo estendido no chão”

Economista Mônica de Bolle diz que a educação no Brasil está formando analfabetos funcionais e nivelando todos os jovens por baixo, inclusive os da elite

Praça da Estação, BH, 15/05: estudantes e pessoal da educação se manifestam contra governo Bolsonaro e os cortes no orçamento das universidades. (Midia Ninja-Facebook)

A educação brasileira precisa ser discutida com a mesma urgência da reforma da previdência, pois o país está formando analfabetos funcionais – alerta a economista Mônica de Bolle, professora da John Hopikins University. Em artigo no Estadão, ela chama a atenção para “o corpo estendido no chão, com o governo fechando a janela para não ver o crime” cometido. Contra toda a educação no Brasil.

A economista critica o corte “arbitrário” nas verbas das universidades públicas e a “decisão precoce” de eliminar bolsas de estudos concedidas pela Capes e pelo CNPq. Adverte que “dezenas de milhares de alunos deixarão de fazer o mestrado ou o doutorado, dezenas de milhares de pesquisadores ficarão sem recursos para seu trabalho acadêmico”. É que no Brasil o desenvolvimento da pesquisa depende dessas bolsas, diferente dos EUA onde há amplas fontes de financiamento. Mas as preocupações de Bolle vão muito mais longe.

O Brasil está péssimo nos indicadores que avaliam a qualidade da educação, como o exame Pisa da OCDE, aplicado a cada três anos em mais de 70 países com alunos de 15 anos, ou seja, jovens que estão perto de concluir o ensino fundamental e entrar na fase preparatória para a universidade, o ensino médio. O último retrato que se tem da educação brasileira vem do Pisa de 2015. E “a fotografia do corpo estendido no chão é de uma violência chocante”, diz De Boulle.

No Pisa 2015, os alunos brasileiros obtiveram uma média de 401 pontos em ciências, abaixo do nível 2 da OCDE, faixa que define o mínimo de proficiência. “Estar abaixo do nível 2 significa que o aluno não aprendeu a interpretar dados ou a identificar a principal pergunta nas experiências mais simples”, observa a economista. Na avaliação de matemática, 70%  ficaram abaixo do nível 2, não conseguindo usar os conhecimentos básicos da matéria para resolver problemas simples.

– Sem o embasamento mínimo em ciências e matemática, proporção enorme dos alunos brasileiros não estará preparada para os empregos do futuro, cada vez mais influenciados pelas inovações tecnológicas que haverão de influenciar o mercado de trabalho e as vagas disponíveis. Nossos jovens não estão minimamente qualificados para um futuro que chega rapidamente. Pensem no drama social e no desperdício inominável que isso significa.

Não alcançar o nível 2 do Pisa equivale a ser um analfabeto funcional. “Portanto, a conclusão é que metade dos alunos brasileiros avaliados pela OCDE é composta por analfabetos funcionais aos 15 anos, às vésperas de ingressar no ensino médio”, comenta a economista.

O problema não está concentrado nas faixas de renda mais baixas. O Pisa mostra que a educação brasileira é ruim também para os filhos da elite, que têm desempenho muito abaixo do aluno mais pobre de Hong Kong, e mais ou menos equivalente ao do aluno de classe média baixa do Chile. “Os filhos da nossa elite não chegam a alcançar o nível 3 da OCDE, enquanto os filhos da elite do México, Chile e Uruguai o ultrapassam. No Brasil, estamos nivelando todos os jovens por baixo”, diz de Bolle.

Ela dá um lembrete aos que apoiam os cortes nas universidades públicas: “São as universidades que formarão os professores, os diretores de escola, os secretários de educação, enfim, todos os responsáveis por educar os filhos do Brasil. Está lá um silêncio servindo de amém”.

 

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