Politização do Sistema S chegou ao auge em 2018

Uso eleitoral nos moldes de José Alencar se propaga pelo sistema e dá argumento para novo governo cortar recursos de entidades empresariais

As entidades empresariais que administram os recursos do Sistema S (cerca de R$ 20 bilhões/ano, segundo o grosso das estimativas) vêm promovendo carreiras políticas há pelo menos cinco décadas como mostra o caso do sergipano Albano Franco, ex-presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria) que disputou cargos eletivos desde os anos 70. A novidade é que essa politização chegou ao neste ano com quatro candidatos a governador oriundos do sistema: Paulo Skaf (Fiesp) em São Paulo, Armando Monteiro (CNI) no Pernambuco, Katia Abreu (CNA) no Tocantins e o único vitorioso no grupo, Mauro Mendes,  eleito para governar Mato Grosso após seis anos na presidência da Federação das Indústrias e Sesi/Senai no estado.

INDÚSTRIA NA FRENTE

A politização do sistema ocorre e todo setor. Kátia Abreu conciliou a representação da Agricultura com o cargo de senadora; o ex-vice-governador mineiro Clésio Andrade atuou na política com suporte da CNT, entidade do transporte sob seu comando há uns 20 anos. Mas nenhum setor politizou tanto o seu sistema como a indústria. Nada menos que três dos quatro dos grandes candidatos ligados ao Sistema S em 2018 pertencem ao setor industrial, não por acaso um dos mais beneficiados por subsídios e incentivos estatais.

A indústria também contribuiu para a politização das entidades empresariais fornecendo os dois exemplos que mais inspiram os projetos políticos nascidos do Sistema S. Um é o já citado Albano Franco, que foi deputado e senador enquanto presidia a CNI e acabou governador do seu estado. O outro grande exemplo é o mineiro José Alencar, que saiu da Fiemg para a política e chegou à vice-presidência da República.

EXEMPLO E MAZELA

O caso mineiro também é exemplar das mazelas do sistema. Em 1994, José Alencar deixou a presidência da Fiemg para disputar o governo de Minas com uma campanha baseada em suas realizações na entidade e uma promessa aos prefeitos de construir 130 CATs (espécie de centros de serviços). Derrotado nas urnas, ele deixou uma dívida enorme para o sucessor na Fiemg. Mas comprou sua entrada definitiva na política. Embora mal sucedida a campanha o cacifou para a presidência do PMDB no estado e depois para a eleição ao Senado, de onde se projetou para o cargo de vice-presidente. Desde então Alencar tem sido um modelo para líderes empresariais com ambições políticas, inclusive o paulista Skaf.

O uso político do Sistema S, com o investimento em projetos de objetivo eleitoral, é facilitado pela baixa transparência do sistema. Praticamente não há maior fiscalização ou auditoria; os balanços não são disponíveis. Agora essas mazelas começam a cobrar o seu preço: a politização está dando argumento para o futuro ministro Paulo Guedes passar a faca nos recursos. O sistema é alimentado por descontos sobre a folha de salários das empresas. E desonerar a folha de pessoal para estimular a criação de empregos é uma dos principais ideias do novo ministro.

TEMA NA CABEÇA

A facada no Sistema S (Guedes falou em corte de 30% ou 50%) teria sido um dos principais assuntos de um suposto encontro entre o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, e a equipe do futuro ministro durante a campanha eleitoral, no Rio de Janeiro. O industrial mineiro negou a reunião. Mas sabe-se que Guedes andou conversando com outros representantes de entidades empresariais. Com ou sem Roscoe, ele fez audições na área. E pelo visto, o ministeriável da economia vem estudando a facada há meses, desde que Bolsonaro passou a ter chances de vitória. É um projeto que já está na mente de Guedes por tempo demais para ser abandonado facilmente. A pressão das entidades terá que ser pesada para preservar ao menos o grosso dos recursos do Sistema S.

 

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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