Nova previdência vai prejudicar a economia em vez de ajudar

Projeto reduz consumo e tunga o maior patrimônio das empresas, que é o seu mercado, ao empobrecer muitos e privilegiar uns poucos

A reforma da previdência aprovada em 1º turno na Câmara nesta quarta (10/07) deve surtir efeitos opostos ao anunciado por seus patrocinadores. Vai deprimir a economia em vez de estimular. A reforma era inevitável. Mas, o seu custo social e econômico seria bastante atenuado se o ajuste  fosse mais racional e equilibrado, tirando muito de poucos e não da maioria do povo. Como está, a reforma é concentradora de renda, antieconômica e contraproducente.

Os cerca de R$ 900 bilhões para cobrir os cofres previdenciários na próxima década sairão do bolso de consumidores; deixarão de circular no comércio. E esse desfalque não será compensado por investimentos. É um engodo a ideia de que ajuste fiscal atrai os capitais. Ninguém aplica dinheiro em negócio porque o governo está com contas no azul e, sim, porque há gente querendo o bem a ser ofertado. O que atrai investidor, sempre, é justamente aquilo que a nova previdência vai prejudicar: a demanda interna por serviços e produtos.

Pelo projeto aprovado, mais de R$ 680 bilhões ou quase 80% da poupança previdenciária serão pagos por trabalhadores do setor privado. A segunda maior conta, mais de R$ 150 bilhões, recairá sobre os mais pobres, beneficiários do BBC (benefício para idosos vulneráveis) e do abono salarial. Os servidores federais, que ganham muito mais e ainda têm estabilidade, vão contribuir com pouco mais de R$ 50 bilhões. E os reis das benesses, os militares, darão meros R$ 10 bilhões. O principal critério na distribuição dos custos parece ter sido o seguinte: quanto mais rico, poderoso e privilegiado, menor o sacrifício.

É a “maior redução de direitos já vista em nossa história” segundo Marcus Oriente, professor de direito previdenciário da USP, em artigo na Folha. “A reforma prevê condições para a obtenção de benefícios que serão impossíveis de serem atendidas pelos trabalhadores em geral, o que é agravado pela reforma trabalhista, que generalizou o acesso a trabalhos instáveis, dificultando a continuidade da vida contributiva”, comentou.

Na prática a reforma extingue a aposentadoria para muitos brasileiros, quiçá a maioria. Os ‘inaposentáveis’ passarão a vida pagando para ajudar a financiar os grupos que seguirão usufruindo da aposentadoria, agora um privilégio social. Isso é uma solução? Claro que não. Para as contas do governo será um alívio, mas somente temporário, até que a destruição da perspectiva de aposentadoria aprofunde a queda na arrecadação do INSS e comprometa novamente o sistema (a contribuição dos privilegiados não sustenta nada). A injustiça da reforma anulará com o tempo os ganhos fiscais. E para a economia, será um desastre na certa.

Virou mantra no Brasil atribuir ao empresário ou investidor o papel de movimentar a economia, fazer a roda girar. Não é bem assim. Se tem algo abundante no mundo de hoje são capitais. Não falta dinheiro para novos empreendimentos. Desde que haja mercado. O maior ativo da empresa moderna não está em seu caixa ou imóveis e sim no seu cliente, no seu mercado. Essa reforminha mesquinha e distorcida aprovada ontem não passa de uma tungada, um golpe, no maior patrimônio das empresas brasileiras.  

Empobrecer muitos para beneficiar poucos é a receita mais antimercado e antieconômica que existe. E não se faz outra coisa em Brasília. Não é à toa que o país não vai para frente.

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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