Mercado bélico vive euforia com corrida armamentista no Brasil

Viagem inédita de premiê de Israel, 10º maior vendedor de armas pesadas, e explosão das ações da Taurus na Bovespa refletem  expectativas de um boom do comércio bélico com obsessão por segurança no país

Presidente Jair Bolsonaro e o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu.

Dos 10 chefes de Estado e mais de 20 autoridades estrangeiras que vieram à posse de Jair Bolsonaro, ninguém dedicou mais tempo e atenção ao novo governo brasileiro que o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu. Na primeira visita de um premiê israelense ao país, Netanyahu passou aqui nada menos que cinco dias: chegou às 10h de sexta, 28, quando almoçou com o presidente brasileiro, e só retornou na noite de terça, 01, após uma agenda cheia de compromissos (em parte não divulgada). Tamanho interesse súbito vai muito além da mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, promessa de Bolsonaro. Israel também quer aumentar vendas de suas sofisticadas tecnologias militares e equipamentos de segurança. E não só os armamentistas israelenses estão empolgados com o novo governo do Brasil: a perspectiva de incremento do comércio bélico no país provocou tanta euforia neste mercado que as ações da marca nacional de armas Taurus subiram mais de 80% na Bovespa, apenas nos últimos dois dias, apesar dos graves problemas da empresa.

ONDA ARMAMENTISTA

O caso Taurus é exemplar da onda armamentista no Brasil. Nesta quinta-feira, 03, por volta do meio dia, os títulos da Taurus eram negociados a R$ 7,33, uma alta de 22,6%. Ou de 81% no acumulado de dois dias. No ano passado a ação ordinária da empresa foi a que mais subiu na bolsa de São Paulo, com valorização de impressionantes 180% segundo levantamento da Economática. A empresa sediada em São Leopoldo (Rio Grande do Sul) continua apresentando problemas estruturais; tem endividamento elevado e registra prejuízo desde 2012. Mas nada disso importa mais; o mercado só vê agora a recuperação financeira da empresa a partir do forte incremento de sua produção de revólveres, pistolas, fuzis, submetralhadoras carabinas, rifles e espingardas para uso militar e policial ou civil.

APOSTA CERTA

Para os investidores no arriscado mercado acionário, se há uma aposta certa a se fazer em relação ao Brasil é que haverá uma corrida armamentista para reforço da área de defesa e segurança. São favas contadas que a posse de armas em casa ou trabalho (e também o porte delas, segundo declarações ontem do presidente) será flexibilizada para cidadãos sem antecedentes criminais numa das primeiras medidas do novo governo, aguardadas neste fim de semana. Também se aposta em maior alocação de recursos públicos para reequipamento tanto das Forças Armadas como das forças policiais dos estados, em atendimento à obsessão popular por segurança expressa nas urnas com a vitória de Bolsonaro e seus aliados da ultradireita. Enfim, o que não deve faltar no Brasil dos próximos anos é demanda para armas de fogo e equipamentos de segurança. Para esse mercado o tempo de festa não acabou em 02 de janeiro, primeiro dia útil do ano. Só está começando.

SAINDO NA FRENTE

Com a demorada visita de Netanyahu, os israelenses buscam posição de frente na corrida armamentista brasileira. Pretendem ser um dos principais parceiros nessa área. Contam com a simpatia de Bolsonaro e seus quatro filhos, que já teceram muitos elogios à organização militar de Israel, tanto às suas Forças Armadas como à agência de inteligência Mossad. E o marketing israelense não se limita à viagem do premiê: tem havido intercâmbio entre fabricantes bélicos e potenciais clientes dos dois países. No início de dezembro, a imprensa noticiou uma viagem a Israel do novo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, em busca de drones que podem disparar tiros; cogitou-se o seu uso para vigilância de favelas.

ATRÁS VEM GENTE

Israel tem feito grande esforço para aumentar exportações de sua indústria bélica. Entre 2010 e 2014 (últimos dados conhecidos), as vendas externas de armas pesadas israelenses subiram 30%, levando o país à 10ª posição no ranking mundial liderado pelos EUA, o maior fabricante e exportador, responsável por 31% de todo o comércio global. Os EUA são naturalmente potenciais interessados no novo mercado bélico em expansão na América do Sul. Mas esse é um mercado muito competitivo. Mais de 60 países vendem armas. E alguns andam precisando reforçar suas exportações com novos clientes, a exemplo da França, que despencou da 3ª para a 9ª posição no período pesquisado.

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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