Guerra do Coaf revela desconfiança disseminada no país

O Centrão não confia em Moro, cujos aliados não confiam em Guedes; todos suspeitam de todos e assim a tensão não baixa nunca

A guerra aberta em torno do Coaf é exemplar do nível de desconfiança que se instalou no Brasil. Desconfiança não só dos cidadãos em relação ao governo e poderes constituídos como também nas relações interpessoais e entre as próprias instituições. Ninguém está confiando mais em ninguém. E quando as suspeitas dominam, não há clima para diálogo e entendimento; a tensão política não tem como baixar.

O Coaf virou objeto de disputa por sua função: monitora movimentações financeiras suspeitas. Quem o controla, em tese tem em seu poder dados privilegiadíssimos, daqueles que podem arruinar reputações empresariais e políticas. Na quinta, 23, a Câmara dos Deputados aprovou tirar o órgão de Sergio Moro e mandá-lo para Paulo Guedes. Foi uma vitória do Centrão. Mas, por margem apertada (228 a 210). E falta a palavra do Senado, que poderá ser influenciada pelas manifestações bolsonaristas deste domingo em apoio ao ministro da Justiça (entre outras bandeiras). Moro perdeu a primeira batalha, não a guerra. Ainda.

Não deveria importar onde fica o Coaf. Os dados apurados pelo órgão serão os mesmos na Justiça ou Economia. Mas, as partes envolvidas suspeitam que o uso desses dados pode variar conforme o ministério. Daí a briga de foice entre Moro e os partidos do Centrão. O problema de fundo é a falta de confiança: parlamentares não confiam em deixar o Coaf nas mãos de Moro, cujos apoiadores não confiam em deixá-lo com a equipe econômica. Cada lado tem suas razões.

Os contrários ao Coaf na Justiça temem a manipulação do órgão por Moro e sua equipe lavajatista em perseguições à classe política. Do outro lado, os contrários à mudança do órgão para a Economia temem prejuízos para as investigações de corrupção, uma vez que o pessoal da área econômica tem o olhar treinado para crimes tributários e não propriamente financeiros. A Polícia Federal está na outra turma, a de Moro.

Em qualquer pasta, o Coaf pode ter um uso eficiente tanto na apuração de crimes tributários como de corrupção. Se as instituições tivessem mais  credibilidade e trabalhassem a contento, não haveria razão para briga: era só compartilhar dados e deixar à Justiça decidir sobre sigilos. Tudo deveria seguir uma rotina previsível, legal e eficaz. Mas, estamos no Brasil com seu histórico de golpes e agressões ao Estado de Direito.

A guerra do Coaf ainda é acirrada por ambições pessoais. Moro mira alto. Quer um assento no STF, se não puder ocupar a cadeira do próprio chefe, Jair Bolsonaro. Como juiz da Lava Jato, pegou pesado com importantes caciques. Natural que meia classe política e até alguns bolsonaristas arrepiem ao imaginá-lo com o poder devastador do Coaf.

No outro lado, dos aliados de Moro, grassa a desconfiança de que grupos políticos conspiram para neutralizar a ação do Coaf no combate à corrupção. As incontáveis tentativas no Congresso de apagar ou perdoar os erros do passado e travar o avanço de investigações contra parlamentares. Se Moro carrega o estigma autoritário do lavajatismo, o Centrão leva a má fama de fisiologia desbragada, não poupando meios para tirar proveito do Estado.

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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