Governador manifesta ‘autismo político’ ao tomar posse no cargo

Discurso com apenas 305 palavras, simplório e superficial coloca em dúvida o senso de realidade de Zema e o seu comprometimento com resultados

O governador Romeu Zema toma posse nesta terça-feira (1/1/19), em cerimônia realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

A posse de Romeu Zema não foi só a mais simples da história, restrita à cerimônia de praxe na Assembleia Legislativa e um evento mixuruca na Cidade Administrativa com café e pão. Além de quebrar a tradição do pronunciamento na sacada do Palácio da Liberdade, o novo governador se destacou dos antecessores com o discurso mais breve já ouvido em eventos do tipo: só 305 palavras ou 1833 caracteres. O que seria ótimo se ele fosse grosso além de curto. Longe disso, o discurso de Zema foi tão raso e pouco inspirado que mais pareceu uma manifestação de ‘autismo político’.

 O novo governador só repetiu chavões ou banalidades como “acabar com os cabides de empregos e cargos por indicação política”, ou seja, eliminar os servidores comissionados, os quais representam 1,1% do funcionalismo e têm baixo impacto na folha de pessoal. Zema prometeu abrir uma “caixa-preta das finanças” que só existe para as pessoas desinformadas sobre as contas estaduais, todas abertas na internet. Falou ainda em “arrumar a casa” como se a crise mineira fosse uma mera questão administrativa e em renegociar a dívida estadual com a União como se isso fosse uma decisão unilateral. Diante da calamidade no Estado, tanta superficialidade coloca em dúvida o próprio senso de realidade do governador.  

 FUGA NO AUTISMO

 O discurso sucinto e ‘autista’ revela falta de comprometimento não só com a realidade como também com as expectativas de êxito do governo. É como se o governador se sentisse desobrigado de apresentar bons resultados já que assumiu sem nenhuma experiência de setor público, e o eleitor sabia perfeitamente disso. Quer dizer: ao mostrar e reforçar todo o tempo a sua inexperiência com um comportamento autista, Zema cria um álibi para seu eventual fracasso. Se a sua gestão der certo, ótimo. Se der tudo errado, não será culpa dele que assumiu sem entender nada. O ‘autismo político’ é, ao mesmo tempo, um álibi e uma fuga para o despreparo ou incapacidade para lidar com a realidade.

GESTÃO DE MIGALHAS

Exemplo do modo autista de Zema está na questão da dívida. Ao mesmo tempo em que discursou sobre a renegociação como uma de suas principais iniciativas, ele deixou de comparecer à posse de Bolsonaro porque não chegaria a tempo em voo comercial e não queria usar avião de propriedade do Estado.  No máximo, ele economizou migalhas na conta de combustível do governo. No mínimo, perdeu uma grande oportunidade de se enturmar em Brasília com quem irá negociar a salvação do seu governo. Uma escolha tão pouco inteligente parece mais uma desculpa de Zema para esconder a sua insegurança e falta de traquejo no meio político.

NÃO ESTÁ SÓ

O governador mineiro não é o único dirigente a se refugiar no ‘autismo político’ diante da adversidade que não compreende ou não pode controlar. Só nos últimos dias, o presidente francês Emmanuel Macron, acossado por protestos dos ‘coletes amarelos’, e os governantes das Ilhas dos Açores e da cidade de Coimbra, em Portugal, foram taxados de ‘autistas’ na mídia dos seus respectivos países. Na realidade, o ‘autismo político’ está em alta no planeta, já dominando as redes sociais e transformando o meio digital num mundo paralelo onde cada pessoa pode ajustar a realidade às suas opiniões e aos seus anseios.

Íntegra do discurso de posse do governador Romeu Zema

“Daqui alguns minutos, eu e meu amigo aqui, Paulo Brant, seremos empossados como governador e vice de Minas Gerais. Cargo que vamos exercer até 2022. Aceitamos este desafio, junto ao partido Novo, porque não dava mais para ver nosso estado na situação em que está e não fazer nada para melhorá-lo. Eu e o Paulo, aceitamos o desafio e agora temos que abrir a caixa-preta das finanças do estado. Arrumar a casa, renegociar a dívida com o Governo Federal para colocarmos as contas em dia. Atrair investimentos, o estado ficou parado esses anos, pagar o salário do funcionalismo sem atraso, fazer os repasses para as prefeituras, criar empregos, cuidar da educação, da segurança e da saúde. 

Nós mais do que qualquer outro governo da história de Minas, vamos cortar mordomias, luxos, desperdícios, que são o mau uso do dinheiro público. Vamos acabar com os cabides de empregos e cargos por indicação política. É extremamente necessário enxugar a máquina. É preciso oferecer mecanismos e condições para que o servidor público consiga exercer a sua função com excelência no que diz respeito o atendimento a população. 

Vamos tomar as medidas necessárias para recuperar Minas. Todos nós, sem exceção, teremos que fazer sacrifícios. Pois o estado está literalmente falido. E a partir de agora, precisamos de união. Todos nós, 22 milhões de mineiros. Precisamos de um pacto por Minas Gerais de cooperação e união de todas as classes. Todos os poderes, todos os cidadãos e cidadãs, sem distinção. 

Espero poder contar com a imprensa, que tem um papel fundamental neste processo de transparência que vamos implementar em Minas Gerais. É preciso que todos colaborem para voltarmos a respirar. Este projeto de recuperação não é só meu, nem só do partido novo. É um projeto de toda Minas Gerais. Contamos com cada um de vocês. Muito obrigado.”

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

Comentários

seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Ir Para o TOPO