Fabinho aposta em benefício e voto avulso contra favoritismo de Maia

Campanha “solteira” de deputado mineiro é menosprezada por caciques mas pode atrair deputados com promessa de equiparação salarial ao STF

foto: deputado Fabinho Ramalho

Sem apoio de nenhum partido, nem da própria legenda MDB, o deputado  Fabinho Ramalho está mantendo a candidatura à presidência da casa com uma campanha desvinculada dos caciques, ou “solteira” como ele definiu para o site. “E vou ganhar”, disse taxativo no fim desta semana, com a voz abafada pelo barulho (eram mais de 23h e ele estava no maior agito). É normal candidatos blefarem. Mas, realmente, Fabinho parece esperançoso apesar do nítido favoritismo de Rodrigo Maia, atual presidente e candidato à reeleição. O deputado mineiro tem um trunfo na manga: como candidato solteiro ou avulso ele pode se comprometer com pautas que são caras aos deputados mas indigestas para a opinião pública (e delicadas para Maia) como o novo reajuste do salário parlamentar.

 Fazer campanha solteira significa abordar os eleitores um a um, em vez de buscar apoio de bancadas. Fabinho aposta em votos pessoais amealhados com a ampla rede de amizades e relações sociais que construiu em Brasília ao longo de três mandatos e muitos anos de festas em seu apartamento funcional. O estilo peculiar e a fama de festeiro lhe renderam popularidade entre os colegas, mas também uma imagem meio folclórica. Embora muito querido, Fabinho não está entre as cabeças da casa; visto mais como um representante do chamado baixo clero do legislativo.

 O perfil de Fabinho o conduziu ao posto de vice-presidente, que ocupa há dois anos. Agora, a disputa é muito mais pesada: o presidente da Câmara é o segundo na linha de sucessão presidencial, substituindo o presidente da República na ausência deste e do seu vice. Para quase todos os analistas, o deputado mineiro estaria pleiteando um cargo poderoso demais para o seu bico. Suas chances são consideradas nulas diante do crescente favoritismo de Rodrigo Maia, o nome preferido no establishment (governo Bolsonaro, caciques, mercados, etc). Será?

Fabinho tem a vantagem de maior desenvoltura ou liberdade de promessa. Diferente de Maia, o deputado mineiro está podendo defender abertamente a bandeira que mexe com todos os deputados/eleitores: o reajuste do salário parlamentar para sua equiparação ao dos ministros do STF, cujo pagamento teve aumento de 16, 3%, subindo de R$ 33,7 mil R$ 39,3 mil. A pergunta que não cala e que só será respondida no voto: em tempos bicudos como os atuais, quantos deputados não serão tentados a votar no candidato que mais promete se empenhar por um aumento de R$ 5,6 mil à sua renda mensal?

 Há precedente de eleição de presidente da CF com votos avulsos e contra o nome preferido do establishment. Em 2005 Severino Cavalcanti venceu inesperadamente o candidato oficial Luiz Eduardo Greenhalgh. Também Eduardo Cunha se elegeu com campanha baseada em laços ou benefícios pessoais, embora tivesse apoios partidários. Hoje, a configuração da CF até favorece mais candidaturas personalistas e pragmáticas em função da maior pulverização partidária na casa, com representação recorde de 28 legendas e predominância de pequenas bancadas. O que enfraquece o poder das cúpulas partidárias. Por outro lado, o jogo ainda está rolando.

 AINDA NÃO GANHOU

 O favoritismo de Maia se apoia em fortes expectativas. “Acreditamos que são elevadas as chances de Rodrigo Maia vencer as eleições”, escreveu no fim de semana a MCM Consultoria aos seus clientes. Mas, de fato, a vitória ainda não está garantida. Quatro partidos já deram apoio a Maia, além do seu DEM: o PSL de Bolsonaro, PRB, PSD e PPS. Ao grupo deve se juntar o PSDB, pressionado pelo governador João Doria. Se os deputados dessas siglas votarem em bloco, sem defecções (o que é difícil), Maia teria aí 182 votos. Para fazer maioria entre 513 deputados são necessários 257; faltam pelo menos 75 votos para fechar o jogo. E a disputa ficou mais acirrada esta semana com a entrada de mais um concorrente, Marcelo Freixo, do PSOL, que deve dividir votos à esquerda.  

A maior vantagem de Maia é estar no cargo para articular apoios e fazer agrados. Numa canetada, ele já antecipou o pagamento de auxílio-mudança aos deputados. O benefício equivalente a um salário (R$ 33,7 mil) é tradicionalmente pago no fim do mandato, em 31 de janeiro; desta vez foi depositado no dia 28 de dezembro na conta dos parlamentares.  

 

 

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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