Caso Neymar expõe os brasileiros que desprezam as mulheres

Acusação de estupro contra jogador provoca onda de misoginia no país, onde o femicídio disparou nos últimos anos

O sucesso da hashtag #EstupradaDeTaubaté  e a propagação de posts contra Nagila Trindade ou a favor de Neymar deixam claro que uma boa parcela dos brasileiros, incluindo autoridades, já formou juízo a respeito. A vítima seria o jogador, atraído à armadilha de uma periguete maliciosa, golpista e chantagista. Essa sentença vem sendo decretada nas redes sociais de modo forte, com convicção.

As informações sobre o caso se resumem, por enquanto, a declarações dos envolvidos e um trecho de vídeo vazado na internet. Mas, já bastou para muita gente. Para que esperar pelas investigações da polícia? Ora, a Bíblia já esclareceu tudo, desde o início dos tempos: a pecadora é a Eva, que se deixou tentar pela serpente e seduziu o inocente Adão.

Por isso o presidente Bolsonaro, cujo lema é “Deus acima de todos”, correu a abraçar o “garoto” e a manifestar crença inabalável na sua inocência: “A mulher atravessa o continente, um montão de coisa acontece e ela quer…”. O presidente não teve nenhum fio de dúvida de que a mulher provocou a situação. Tal como Eva no paraíso.  

Datena também não pensou duas vezes para defender na TV a teoria da armação e passar a mão na cabeça do “moleque” inocente. “Você vai falar com o moleque pra não sair com mulheres? Não transar, não ir a festas?”, disse em reação instintiva e irrefletida. Não ocorreu ao apresentador a possibilidade de que a mulher seja realmente vítima, e não o oposto como fez crer os seus espectadores.

De repente, Neymar virou símbolo do homem acossado, perseguido e abusado por vadias e bandidas como Nagila, que só falta virar feminista para se tornar a mais vil das mulheres. Na corrida misógina para afirmar o poder masculino, tão bem expresso no ídolo do futebol, chega-se a eliminar uma hipótese perfeitamente plausível, embora não única: a de que o estupro possa ter acontecido.

Sim, até que as investigações provam o contrário, não pode ser descartada a hipótese de que o astro milionário e mimado, com a natural arrogância de sua posição, não conseguiu assimilar um não da mulher na qual investiu tempo e dinheiro. E não conteve a sua raiva, reagindo com agressividade – algo que ele tem de sobra, ou não seria tão competitivo em campo.

Por que essa versão não é considerada por tantos brasileiros (e mesmo brasileiras, como a deputada Joice Hasselmann)? Porque essa versão é insuportável para os homens que desprezam mulheres (e para as mulheres que se desprezam).

Na sociedade patriarcal, a mulher serve ao homem; não nega nada a ele. Por isso é tão difícil para homens como Datena, Bolsonaro e Neymar entenderem que uma mulher pode dizer não a um homem, em qualquer momento ou situação, mesmo tendo viajado até Paris ao seu encontro ou sendo casada com ele há anos. Nem maridos têm o direito de forçar o sexo.

Valores machistas da sociedade e maus exemplos de famosos ajudam a explicar o aumento dos abusos contra as mulheres.  Prova é a disparada do número de feminicídios no país. Segundo a última edição do Atlas da Violência, levantamento do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de assassinatos de mulheres cresceu 38% em dez anos, quando deveriam estar diminuindo ou desaparecendo. Em 2017, ano da pesquisa, foram 1.407 mortes dentro de casa. Nem precisa dizer quem é o assassino no grosso dos casos.

As investigações da polícia – e só elas – talvez possam um dia esclarecer os fatos e apontar a verdade. Mas, qualquer que seja a conclusão, Neymar e todos os que o apoiam antecipadamente já garantiram sua vaga no panteão dos brasileiros que desprezam as mulheres em vez de amá-las.

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

Comentários

Há 7 comentários neste artigo
  1. Werner 9 de junho de 2019 20:27

    Jornalismo lixo. Ela mesmo já mudou a “estória”. Não é mais estupro. É agressão. E ainda teve seu tablet com o vídeo comprovando o fato misteriosamente roubado de seu apartamento que não foi arrombado… vão aprender o que é jornalismo ao invés de falar besteiras.

  2. Ivelise 11 de junho de 2019 19:53

    Essa moça já teve o que queria, momento de glória(pra ela) e ainda tá querendo ser dona da bola?
    Deixa o menino em paz.

  3. Ana e Silva 13 de junho de 2019 00:01

    Parabéns! Texto ótimo e verdadeiro!

  4. Ana e Silva 13 de junho de 2019 00:04

    Perfeito, verdade ou mentira quem deve decidir é a justiça. Hoje passei o dia pensando nisso, como nosso povo é misógino. A eleição do atual presidente brasileiro, só comprova isso. Uma grande pena, ainda bem que ainda temos jornalistas sérios e críticos. Parabéns!!!!

  5. Zark wild 14 de junho de 2019 12:36

    E se for provada a inocencia de neymar(ou nao aparecerem as provas,o que acontece com nagila?nada nao e mesmo? Entao o prejuizo e todo dele ,nao e mesmo?nao te parece injusto acusar sem as provas? Afinal de quem temos que ter pena?

  6. Zark wild 14 de junho de 2019 12:39

    Nao te parece injusto acusar , dizer que devia ter matado,e nao ter provas?voce quer que tenhamos que sentimento sobre essa mulher?

  7. Felix 15 de junho de 2019 21:19

    Além de isso não ser jornalismo, faz a própria contradição. A própria Nargila não consegue ser convincente em sua história. Todos que falam sobre o assunto, opinam sobre os fatos apresentados. Se é injusto alegar culpa dela, o mesmo se faz em relação ao acusado. Hipocrisia tentando ganhar espaço. Citando misoginia e feminicidio… Que irresponsabilidade. Dizer que isso é jornalismo… Faça o favor.

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