A Preguiça – parte 1

Paris, sexta-feira, 2 de dezembro de 1814

Agradeci à criada a taça de vinho e o aviso da chegada de Monsieur Barre. Recostada nas almofadas adamascadas da otomana, conferi o fogo na lareira e vi pela janela a neve caindo sobre as árvores desfolhadas da Place des Vosges. Os últimos passantes demonstravam mau humor no final precoce da tarde de inverno, com aquele ar enfarado de tantos dias de chumbo e céu cinza. Fechei os olhos. Acudiu-me à cabeça o sol de minha mocidade em Marselha.
Aconcheguei-me sob as cobertas, sorvi um gole e avaliei, pela minha lassidão, que o pecado capital reservado à velhice era realmente a Preguiça. Quase imberbe, mas muito sensível aos comandos da natureza, o jovem Vincent Barre esperava para me satisfazer a Luxúria – ou o que restava dela. Nos últimos tempos, entretanto, qualquer esforço, mesmo os necessários ao êxtase da carne, enfastiava-me. Tudo muda com o passar dos anos. “A Luxúria a juventude comeu, da Gula desisti. Hoje, me parece mais confortável viver os prazeres da imaginação do que o rude chamado do corpo”, concluí.
Fui sacudida dos devaneios por outro toque inesperado na porta. Mas, em vez do gentil-homem, quem invadiu o boudoir foi a mocinha, seguida por uma esbaforida Odette. – Madame, Madame! – gritou Simone, sem a menor atenção à compostura exigida pela etiqueta. Os tempos de Napoleão tinham rebaixado os padrões de comportamento da criadagem. No meu tempo, aquela intimidade seria inconcebível, mas ralhar com ela não valia o esforço.
– Madame, o Marquês morreu! – anunciou sem fôlego.
– Que Marquês? – perguntei, sem querer entender.
– Sade – confirmou Odette com ar compungido.
O primeiro efeito da notícia da morte de meu velho mestre foi a dor. Quantos anos, mais de quarenta? No mesmo instante em que as lágrimas me subiam aos olhos, um insidioso e conhecido calor começou a se espalhar pelo meu corpo. A dor não é empecilho para o desejo, mas antes a causa. A primeira lição do Marquês. – Manda entrar Monsieur Barre – ordenei a Odette, ignorando seu ar de preocupação.
Num átimo, o estudante abriu a porta do boudoir, trancou-a e voltou-se sorridente para mim, já prestes a desempenhar sua tarefa. Logo tirava às pressas as botas de montaria e os calções para liberar o membro erguido em riste, a língua afoita mirando meu sexo, enquanto eu levantava as saias. Em circunstâncias normais, o prazer rápido bastava à minha Preguiça, e tudo se resolveria muito depressa.
Naquele dia, contudo, a dor deu-me energia suficiente para despir-me por inteiro, e até prender à coluna da cama as mãos urgentes de Vincent. Tive de usar o chicote, a princípio com indiferença, em seguida com o deleite que só a submissão de uma vítima desperta. Em pouco tempo todo o belo corpo claro tinha marcas. Lambi lentamente as gotículas de sangue dos vergões, até que se contorcesse de prazer e dor. Ainda tinha as mãos presas quando o cavalguei,
ditando o ritmo. Quando afinal gritei, foi o nome de Sade que chamei, meu querido mestre e carrasco, foi o nome dele que gemi, enquanto o amante misturava seus fluidos aos meus. Nosso espasmo roubou-nos o fôlego. Recobrei-me primeiro.
– Sai, Vincent, teu trabalho terminou – murmurei alguns segundos depois, olhando-o nos olhos pela primeira vez. – Mas não te afastes muito; mandarei a criada avisar quando de novo se fizer necessária a tua presença.
Paguei-o e, ao som da porta a fechar-se, reclinei-me novamente, nua na poltrona, observando com tristeza meus pêlos úmidos, raiados de branco. “O tempo é implacável”, pensei, sem nenhuma originalidade, mas com grande sentimento. Levantei-me com pouca vontade, vesti-me e calcei chinelas acolchoadas. Em passos aveludados de gata velha, dirigi-me à penteadeira. Escolhi um entre os muitos frascos de cristal que se refletiam nos espelhos.
Os extratos reluziam à luz da lareira. Estramônio ou mandrágora, cânhamo ou trombeta, artemísia ou efedra, que planta teria segredos para mim, a filha do jardineiro-chefe da Marquesa de Sade? Pinguei vinte gotas de beladona na taça. A poderosa essência agora se agitava no vinho. É capaz de curar cólicas, mas é também fonte de alucinações. A beladona era o principal ingrediente da poção verde das feiticeiras da Idade Média, que incluía gordura de bebê. Para obtê-la, as bruxas profanavam as sepulturas e ferviam em enormes caldeirões os corpinhos roubados. Esfregando essa pomada de gordura e ervas na pele, com particular atenção aos órgãos genitais, acreditavam-se capazes de voar.
Ninguém pode confirmar se elas de fato viam os telhados do alto de suas vassouras, ou se, no ar, copulavam com o diabo em pessoa, como apregoavam. Mas a diferença entre a realidade e a miragem talvez não seja tão grande quanto dizem os modernos homens de ciência. A voz de Odette despertou-me:
– Com licença, vim certificar-me de que Madame está bem.
– Ia mesmo chamar para tranqüilizar-te.
Era verdade. Se algum laço de afeto ainda me ligava à humanidade, ele era atado por Odette. O tempo e sua verdadeira adoração por mim, a patroa, acabaram forjando o sentimento mais próximo da amizade que conheço. Sua argúcia, seu julgamento preciso e sua lábia me tinham sido preciosos nos últimos trinta anos. Nem a gota que a atacava por vezes empanara seu feitio folgazão, refreado por um travo de ganância. Ela sempre enxergava bons modos de ganhar algum dinheiro e, se não fizera o devido pé-de-meia, pois muito auferira, pelo menos sustentava Olivier com conforto. Adotara seu eterno cafetão ainda garoto, mas já se vangloriando de ser estudante de Filosofia. Tornara-se um velho e inútil filósofo bêbado, autor de maus versos, a contar sempre com ela.
– O que aconteceu com o Marquês? Como o soubeste?
– O jovem cavalariço, admirador de Simone Lely, essa criadita, acabou de voltar de Charenton com a notícia. Aparentemente ele teve uma congestão.
A imagem de Sade, gordo, velho, apoplético, caído em uma cama do asilo, me atingiu. Sacudi a cabeça para tentar afastá-la e reparei que Odette trazia plumas na mão. Reconheci as penas de ganso que sempre enviara a título de consolo e presente para o Marquês. Nada o desesperava mais que não poder escrever. De repente, mais um elemento se tornara inútil. O mundo pareceu-me ainda mais insuportável. Tomei mais um gole de vinho, o que fez brilhar os olhos da velha criada.
– Nem pense nisso – atalhei, com a autoridade temperada pelos anos de bem-querer. – Vou dar-te um chá de flores de madressilva, ideal para gota, bem vi como te arrastaste ao atravessar o boudoir.
Apesar de desapontada pela interdição ao vinho, mostrou-se contente. Nos dias de hoje, beirando os 60 anos, mais do que tê-la feito sempre ganhar dinheiro, minha maior valia era medicar-lhe os achaques e aliviá-la das dores. Toquei a sineta para que a Simone trouxesse o bule com a infusão. Quando chegou, dispensei- a, servi-o a Odette e ordenei:
– Senta-te a meu lado. Sei que entre todos os hipócritas do mundo tu és uma das poucas almas boas que apreciaram o divino Marquês de Sade. Madame, nas poucas vezes em que o vi na cadeia, de divino não tinha mais nada, tão sombrio e doente. Sempre o considerei um cavalheiro, a tratar a todos muito bem, com grande afabilidade e cortesia. Custa crer que ele seja tão mal falado, mesmo porque ninguém resistia a seus encantos.
– Prova é que, além daquela santa da segunda esposa acompanhá-lo de livre e espontânea vontade a Charenton, ele seduziu a filha da carcereira. Apesar de ter apenas 14 anos quando a mãe a cedeu por algumas libras, Madeleine era-lhe extremamente afeiçoada, como de resto todas as mulheres que o amaram.
– Sim, agora, aos 17 anos, ela continuava a rondá-lo. Vivia a agradá-la com os chocolates que a senhora me encarregava de levar-lhe. O sonho do Marquês era sair de Charenton para encenar peças libertinas em Paris com a mulher, Marie Quesnet, e a amante. Quantos planos para um homem já velho! Que idade tinha?
– Fácil, eu nasci no ano do casamento dele, quando contava 23 anos, em 1763. Tenho 51, ele estava com 74.
– Lamento muito pela senhora, Madame, sei que deve estar desolada.
– Odette! – espantei-me. – Tu te dás conta da coincidência deste triste dia? Lembras-te do que aconteceu há exatos dez anos?
– No 2 de dezembro de 1804? Minha cabeça anda ruim para o que fiz ontem, mas o passado está cada dia mais presente. Trago viva a imagem de Madame nervosa, enquanto ajudava Antoine a dar-lhe os últimos retoques no cabelo, achando que iria chegar atrasada à Coroação do Imperador.
– Imagina que ironia do destino, esse homem que não permitiu que o Papa lhe colocasse a coroa na cabeça, preferindo cingir- se com as próprias mãos, hoje prisioneiro na Ilha de Elba. Ah, se eu pudesse sonhar que deixaria não só o próprio Pio VII, como nós todos, esperando quatro horas geladas na suntuosa Notre Dame, não teria atormentado Antoine à toa com meu toucado.
– Bom, pelo menos o Marquês teve o gosto de saber que seu tirano também conheceu a desgraça – consolou-me Odette.
Tomei um gole generoso do vinho com beladona.
– Bem sabes que o Marquês foi uma das vítimas do Imperador, que o fez morrer na cadeia. Percebes que já não temos cavalos honestos hoje em dia? Pois aí tens, Napoleão acabou não só com os homens, mas também com os cavalos da França.
– Nunca entendi bem os livros do Marquês, Madame, pode ser até devido a minha pouca leitura – disse Odette. – Mas sou obrigada a concordar com o corso. Me parecem um amontoado de impropérios.
– Pelo menos não eras um dos censores de Bonaparte, que baniram os romances de Sade das livrarias do Palais Royal. Sempre foste apenas uma mundana em abastança.
– Graças a Madame, nada me faltou. Devo lembrá-la, com todo o respeito, de que sou sua gerente-associada e dona de algumas pequenas propriedades. Mas, se nunca fui mais que uma criada, o grande General nunca passou de um grande corso. Conheço bem as histórias de vendetta e banditti de sua terra natal. Madame, não tenha dúvida, estes são os verdadeiros princípios do Imperador – disse a atilada criatura, não sem uma ponta de admiração.
– Como és sagaz, Odette, como sabes ouvir bem, tua perspicácia compensa tua pouca cultura.
– Sim, lembro-me das histórias daquele jovem oficial corso, que gostava tanto de prosear comigo a ponto de dar-me Gizeh, nosso anão egípcio. Giacomo, que era muito prestigiado por Napoleão, até fisicamente se assemelhava a ele, contava casos de mercenários alugados por sua família para executar sangrentas vinganças contra famílias inimigas. Mas é melhor falarmos de coisas menos lúgubres, Madame precisa descansar o espírito.
– Sempre preciosa, querida Odette. Deixa-me agora, vou sorver meu cálice até a última gota.
Queria rever, ainda que em quimera, aquele que, do mesmo modo que meu pai, me ensinou tudo o que sei. Útil beladona, sempre pronta a criar realidades paralelas. Bastaram poucos minutos para que começassem a desfilar ante meus olhos vívidas imagens. A primeira foi a de Juliette, caída de costas, nua, numa cama de um bordel de luxo, ceifada pelo excesso do remédio que, de alívio, degenerou em vício e morte. Depois, o Marquês morto no asilo de alienados. De volta ao atual esplendor de meus aposentos dignos de um nobre do Ancien Régime, ouvi a voz sarcástica de Louis Alphonse de Sade.
– Muito mudou desde que teus pêlos ainda tinham a intensidade do negro profundo dos toupinamboux, teus antepassados do distante Brasil, Joséphine.
Trazido pela beladona, Louis-Alphonse François, o Marquês de Sade, jovem, impecável, altivo em seu adorável sorriso, surgiu envergando uma casaca cinza, peitilho de renda, culottes de seda e bengala de castão de ouro. Os olhos azuis tinham a ironia de eterno gentil-homem, que reforçava seu ar másculo com as pequenas marcas de varíola no rosto. Os cabelos cor de mel, levemente revoltos, estavam presos por uma fita vermelha.
– O tempo nos mudou, querido Marquês. E devo dizer que foi bem mais generoso comigo que contigo – respondi ao vulto.
A réplica dura desagradou à miragem, que se afastou, deixando- me só com minhas memórias. Hoje tenho muito de tudo aquilo que os homens desejam, mas, de tudo o que me resta, os fantasmas dos pecados capitais são o que mais prezo. Conheci todos os sete, bem intimamente: a Inveja, a Gula, a Ganância, a Luxúria, a Ira, a Soberba e a Preguiça. Mesmo em minha atual predileção por este último, que até então, imatura, julgava desprezível, devo reconhecer os bons frutos por todos eles trazidos.
Da Inveja e da Ira extraí a força que me impeliu vida afora. Da Soberba veio-me o desprezo aos juízos, humanos ou divinos. Da Gula e da Luxúria ganhei o conhecimento íntimo dos prazeres. Da Ganância, o ouro que os possibilita. E agora a Preguiça a prender-me em suas delícias. Muitas vezes, um pecado conduziu a outro, sem que eu o impedisse. A Luxúria, por exemplo, brotou da Inveja, o primeiro deles.
Menina, já me deslumbrava com o mundo de perfumes e brocados, de perucas empoadas e espelhos reluzentes, das frívolas pantufas de seda e da maquiagem de alvaiade que estragava a pele de Madame Renée-Pélagie de Sade, minha patroa. Eu queria muito ser a Marquesa. Mais ainda, eu almejava ter o marido dela. Louis-Alphonse, como eu secretamente chamava meu amo, era um homem de bela figura, com maneiras muito mais refinadas do que as de qualquer outro fidalgo. Se algo duro e maldoso se desenhava no fundo de seus olhos, isso só lhe aumentava o encanto, acrescentando-lhe o sabor de perigo.
Mas, por mais que sonhasse com suas mãos finas, Louis-Alphonse parecia inatingível para mim, Joséphine, a humilde criadinha encarregada de dobrar as saias usadas de Madame, esquentar-lhe a água para o banho e abaná-la com o leque de penas durante os ensolarados verões da Provença. Ao guardar-lhe os vestidos, costumava comparar as sedas de delicados tons que a envolviam com minhas saias de chita ordinária, tingida em cores sombrias. O contraponto ficava ainda pior quando me vinha à lembrança minha mãe, sempre abrigada nas roupas escuras que a protegiam precariamente do inverno parisiense.
Ásperas ao toque, contrastavam com a doçura da voz dela ao me embalar ou implorar que fizesse menos barulho, para não incomodar os patrões. Não, definitivamente, eu não iria repetir o destino miserável de minha mãe. Tantos anos e tantos amantes depois, os seios outrora impecáveis declinando na direção da terra que um dia os abrigaria, eu pensava na garota de 40 anos atrás. E aquela Joséphine, concluí, entorpecida pelo langor do meu ventre bem satisfeito de sexo, beladona e vinho, invejosa e dissimulada, já então sabia muito bem o que queria e intuía os meios de consegui-lo. (continua)

 

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