Brasileiro busca heróis e individualismo triunfa

Favoritismo de Bolsonaro para presidente e de Zema para governador de Minas indica predomínio de valores individualistas na sociedade

Bolsonaro recebe a visita da atriz Regina Duarte (Facebook)

As primeiras pesquisas de 2º turno apontam para uma vitória inconteste de Bolsonaro. A vantagem inicial sobre o rival do PT (18 pontos em votos válidos no Ibope) pode cair com a maior exposição das ideias do candidato do PSL. No 1º turno, após a facada, ele se eximiu de explicitar propostas; ganhou uma espécie de blindagem. Agora, está forçado a se mostrar e falar mais, ficou mais exposto a críticas e denúncias. Porém, dificilmente não será eleito. Bolsonaro tem muita gordura para queimar. E o seu oponente já foi derrotado pela contundente rejeição ao PT na votação geral de 1º turno, quando o eleitor optou por uma guinada à direita no país.

O ataque à faca também beneficiou Bolsonaro ao criar criou condições para  a sua campanha dominar redes sociais com memes emotivos e agressivos, a maioria de conteúdo antipetista (e ilegalmente financiados por empresas segundo denúncias apresentadas agora ao MPF e TSE). Mas o fenômeno bolsonarista, embora ajudado por algumas circunstâncias especiais, tem uma motivação psicossocial mais profunda. O candidato do PSL soube como nenhum outro encarnar o arquétipo que o eleitor inconscientemente busca para a presidência do Brasil: o de salvador da pátria ou herói.

“Infeliz a nação que precisa de heróis”: a célebre frase de Bertold Brecht faz todo sentido histórico, pois as sociedades só costumam recorrer a eles em momentos de desespero. Heróis são imprevisíveis e incontroláveis.  Daí só serem lembrados em situações atípicas. Mas, o arquétipo tem função social importante. Em seu aspecto mais positivo, o herói representa o homem que faz toda a diferença, o triunfo do indivíduo. Ele nos inspira a buscar os nossos poderes ou força interior, dar o melhor de si para encarar os riscos e a superar os desafios da vida. O herói remete a conceitos caros ao liberalismo como livre iniciativa, empreendedorismo, concorrência e meritocracia. Não é à toa que a vitória de Bolsonaro desperta certa euforia no meio empresarial e financeiro. Independente do que pensem o candidato e assessores, o voto maciço em Bolsonaro indica predisposição na opinião pública brasileira a uma agenda de cunho liberal na economia.

Ressalte-se que o arquétipo heroico também vai predominando nas eleições de Minas, personificado nitidamente por Romeu Zema, o empresário que virou a maior zebra de 2018, saindo do zero para o posto de favorito para governar o Estado ou salvar o estado da ruina (o Ibope lhe deu 66% contra 34% de Anastasia). O fato é que os novos governantes estão sendo eleitos para adotar medidas extremas ou salvacionistas. Essa é a expectativa em torno do candidato-herói: ir muito além do comum, fazer o extraordinário com atos de extrema ousadia e intrépida coragem. Botar para quebrar.

Na realidade, o individualismo se tornou característica de comportamento dominante tanto entre os eleitores como entre os políticos em 2018. Note-se que a maioria dos partidos optou pela neutralidade no 2º turno; dessa forma as legendas ou grupos que as controlam se preservam para negociar apoio ou resistir na oposição a partir de 2019, segundo convier aos seus interesses. Essa postura individualista começa a separar até candidaturas que representam papeis semelhantes e convergentes aos olhos do eleitor. Um exemplo em Minas: o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, um ‘outsider’ que deu início em 2016 à saga dos salvadores nas urnas mineiras, preferiu não apoiar Zema, que por sua vez recuou no apoio a Bolsonaro após o presidenciável decidir ficar neutro na disputa estadual e obrigar o PSL a se distanciar do Novo. A ordem geral é cada um por si. 

Separados na campanha, idem no governo. Se eleitos, Zema e Bolsonaro devem seguir isolados em suas respectivas individualidades, como Kalil. O prefeito, o governador e o presidente alinhados a um mesmo modelo ou perfil, porém desconectados um do outro, cada qual fixado nos próprios desafios. A individualização dificulta a articulação do governante com seus pares. E também afeta a interlocução com a sociedade: o diálogo passa a se dar direto com o eleitor (via redes sociais), sem a mediação de instituições e legendas, as quais revidam reduzindo o seu espírito de cooperação. Pelos precedentes conhecidos, candidatos-indivíduos resultam em governos individualistas ou individualizados, com grandes dificuldades de agregação política e interação social.

No reverso negativo, o triunfo do indivíduo significa maior egoísmo social, pouco apreço à coletividade e menor disposição a sacrifícios pelo bem comum. Acredito que o brasileiro está aberto a mudanças liberalizantes, até mesmo à reforma dura da previdência social e ao fim da estabilidade para servidores públicos. Mas, o apego aos interesses pessoais ou corporativos dificulta a negociação de medidas que implicam em perdas para grupos organizados; também estimula as disputas e conflitos, que tendem a crescer em ocorrências e agressividade. Tudo isso favorece divergência, dispersão. Ou seja, as mudanças não se farão sem conturbações e brigas. O risco no triunfo do indivíduo é um nó na governança do país, com os diversos grupos sociais entrincheirados em suas posições e em guerra entre si.

O herói é um ser extraordinário, mítico. Por isso ele sempre aparece, seja no mundo real ou ficcional, como um solitário que age sem parceiros e por motivações próprias. Por isso todo salvador da pátria vira um anti-herói ou inimigo público ao desapontar em sua missão. A nossa análise leva a um prognóstico desafiante para as gestões Bolsonaro e Zema. Eles governarão sob uma ira popular infinita contra tudo e todos, tipo do contexto em que o fracasso não é opção: ou dão muito certo ou serão execrados. Para manter o apoio popular, eles terão que adotar medidas difíceis, que paradoxalmente levantarão fortes resistências. Os novos governantes-indivíduos prometem muitas mudanças, porém ao custo de muita turbulência.

Em suma, a crise política deflagrada com os protestos de 2013 tem tudo para continuar após a posse dos novos governos. Aparentemente o país está saindo da eleição mais rachado que antes.  O que pode afetar o desempenho da economia nos próximos anos, para decepção dos brasileiros já cansados de tanta instabilidade e estagnação. Mas, há uma leitura esperançosa do processo. Mudar e evoluir aos trancos e barrancos, aos berros e protestos, tem sido um comportamento constante na história do Brasil. É o padrão nacional de amadurecimento. O país sofre as dores da transformação; vive em crise porque está mudando, rompendo com o seu passado. E nessa visão (otimista, não ingênua), quanto mais longa a crise maior a evolução.

 

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