Até os crimes mais sórdidos são explorados na guerra política

A guerra de narrativas entre direita e esquerda no Brasil não poupa nem as páginas policiais

A divisão política no país chega às páginas policiais, a partir de dois crimes que abalaram o país nos últimos dias: o assassinato do ator Rafael Miguel e seus pais supostamente pelo sogro e o do menino Rhuan, cuja mãe, ao lado da companheira, teria esquartejado seu corpo e amputado seu pênis.

Que são crimes sórdidos, e tristíssimos, todo mundo concorda. Mas o consenso para aí. A comoção que costuma acompanhar esse tipo de crime foi substituída, pelo menos nas redes sociais, pela disputa de narrativas ideológicas, uma constante no Brasil que se polarizou nas eleições presidenciais e até agora não se uniu. Nem para chorar jovens e crianças vítimas da violência.

A guerra de narrativas entre direita e esquerda teve no primeiro front o deputado Eduardo Bolsonaro, que associou à ideologia de gênero o crime que vitimou Rhuan e foi às redes sociais apontar “culpados”. “Se você puxar um pouquinho, se raciocinar um pouquinho, você vai conseguir conectar esse caso à ideologia de gênero. Ou você não consegue conectar essa amputação de pênis com nenhum projeto da deputada Erika Kokay [PT] e  Jean Willys (Psol)?”, perguntou o deputado em vídeo.

Em matéria sobre o tema, o portal brasileiro do El País mostrou a repercussão do caso de Rafael Miguel junto a opositores da política de liberação de armas defendida pelo governo Bolsonaro. “Não é todo mundo que tem estrutura emocional para ter uma arma em casa”, comentou um usuário do Twitter. “Ainda tem gente que defende a liberação de armamento pesado para a população. O povo está perdendo a noção”, opinava outro internauta, entre postagens reproduzidas pelo jornal espanhol.

Venha de onde vier, seja da direita ou da esquerda, a exploração de tais crimes em favor de uma posição ideológica é sempre condenável. A verdade é que não há explicação para a maldade. Psicopatas e sociopatas nascem assim, com predisposição à violência e pouco apreço pelo ser humano. Não é uma questão política, mas humana e é neste contexto que ela deve ser vista e discutida.

Editora do site Novos Inconfidentes, é formada em Comunicação Social pela UFMG, trabalhou na revista Isto É e no jornal O Tempo e colaborou como cronista e redatora em várias publicações. [ Ver todas as publicações ]

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