Armas liberadas no Brasil podem municiar resistência na Venezuela

A honra do poderoso Trump, humilhado em derrota para Putin e Maduro, espera uma resposta dos aliados incondicionais de Washington na América do Sul

Quando a guerra parecia perdida, não é que acendeu uma luzinha no fim do túnel para a oposição venezuelana? O decreto de Bolsonaro nº 9.785/2019, que altera o Estatuto do Desarmamento e dá acesso a armas inclusive militares a milhões de brasileiros, possibilita a formação de grandes arsenais para uso em ‘guerras’ no país ou em suas fronteiras. O governo Maduro deveria estar apreensivo, pois terá enormes dificuldades para evitar que boa parte das armas e munições liberadas no Brasil vá parar em mãos de opositores do regime. E por que não?

Depois do fiasco da ofensiva na semana passada, os seguidores do presidente proclamado pela oposição, Juan Gauidó, vivem um impasse mortal: como enfrentar ou resistir a uma ditadura cada vez mais dura e armada até os dentes? Dos três principais governos aliados de Guaidó, apenas um, Colômbia, tem uma margem maior de manobra para manifestar esse apoio. Nos dois aliados maiores, EUA e Brasil, os presidentes não possuem autonomia interna para decidir uma ação militar internacional, nem contam com receptividade em seus países para tal empreitada. Já o governo Maduro, além de contar com soldados e milícias fieis, ainda recebe ajuda militar da Rússia.

A luta na Venezuela virou briga de Davi X Golias. Ainda que não fosse intenção, o decreto de Bolsonaro pode reduzir um pouco o desequilíbrio de forças. De certa forma, a liberação de armas no Brasil vem reparar a decisão oposta na Venezuela, cujo desarmamento anos atrás, na visão bolsonarista, teria levado os opositores à situação de reféns do regime chavista. Palavras do deputado Eduardo Bolsonaro nas redes sociais, quatro dias antes do pai assinar o decreto das armas:

“A ONG Viva Rio ajudou no desarmamento da população de bem até na Venezuela. Por outro lado Chávez comprou mais 100.000 fuzis e distribuiu para coletivos, que são grupos como este do vídeo. E agora, como faz para restaurar a democracia na Venezuela? Desarmamento é projeto de poder”.

O armamento também seria, segundo a lógica do deputado. Então, qual o projeto de poder ou objetivo político do decreto das armas? Ele não foi concebido para a segurança pública, já que os entendidos consideram o acesso às armas um incentivo à violência. Também não foi para agradar a população: Datafolha em abril mostrou que mais de 64% dos brasileiros são contrários ao mercado bélico.

O presidente assumiu um alto risco para liberar armas por meio de um  decreto constitucionalmente discutível, no “limite da lei” como ele próprio admitiu. Há alta probabilidade de que ele caia, no legislativo ou judiciário. Ou só vingue numa forma bastante atenuada. Não dá para antecipar o veredito dos parlamentares e ministros do STF. Seja como for, a lentidão da burocracia nacional possibilita que as novas regras funcionem ao menos por um tempo. Talvez, o suficiente para dar legalidade a muitos negócios de armas, especialmente se já houver tratativas engatilhadas.

A imprevisibilidade da janela de negócios explicaria a opção por abrir as importações, com prejuízo da única fabricante nacional de armas, Taurus. Como não se sabe por quanto tempo ela ficará aberta, é preciso aumentar os fornecedores para se comprar o máximo no menor prazo possível.

Bolsonaro agiu à revelia do ministério do ministro da Justiça e da PF. Só ouviu pessoas do seu círculo íntimo e familiar, para as quais a medida tem que fazer algum sentido. A questão é: o que pretende Bolsonaro com o seu ato mais enigmático e arriscado até agora?

O jornalista Reinaldo Azevedo viu no decreto um delírio que tem como horizonte “a luta armada redentora” entre os ‘bons’ e os ‘maus’ (assim classificados segundo a concepção bolsonarista do bem e do mal). Pois, bem: tudo indica que essa luta no nosso continente começa pela Venezuela.

Não pode ser mera coincidência: Bolsonaro assinou o seu decreto enigmático ao mesmo tempo em que o seu colega da Colômbia, Ivan Duque, pedia licença pública a Guaidó para enviar homens ao território venezuelano em caçada a guerrilheiros colombianos que estariam na Venezuela. São duas atitudes belicistas e simultâneas dos maiores aliados de Washington no continente, dias após a derrota dos EUA/Guaidó para Rússia e Maduro. Imaginar que não houve combinação é ingenuidade.  

Trump se tornou o fiador de Guaidó. Para um ególatra e narcisista como ele, deve ser insuportável a derrota humilhante que sofreu diante dos olhos do mundo para o rival Vladimir Putin, que segurou Maduro nos momentos decisivos da ofensiva na semana passada. A honra do poderoso morador da Casa Branca ficou à espera de uma revanche.

Tambores de guerra estão rufando na América do Sul.

Criadora da rede Os Novos Inconfidentes, formou-se em jornalismo pela PUC-MG e trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de Minas, além de colaborar para várias publicações. Ex-colunista do jornal O Tempo e ex-comentarista da rádio Super Notícias FM. [ Ver todas as publicações ]

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