Guerra EUA-China tem batalhas decisivas no front tecnológico

Sanções americanas podem fazer efeito contrário e acelerar a autossuficiência e o vanguardismo dos chineses no setor

A guerra EUA-China começou no front monetário, com a China querendo se ‘desdolarizar’ (afinal, como construir um império com moeda alheia?), seguiu para o comercial (com a batalha de tarifas) e, atualmente, troca escaramuças na área tecnológica. Para o presidente russo Vladimir Putin, está em curso a primeira guerra tecnológica da era digital. “Tome a situação em torno da empresa Huawei, por exemplo. Não há tentativas de desafiá-la, mas de forçá-la descaradamente a sair do mercado global”, disse ele, na semana passada ao site Sputnik.

Comecemos do início. O governo americano, mesmo antes de Donald Trump, já tinha suas reservas em relação a fabricantes chinesas, como a Huawei, por supostas ligações com o governo chinês. Trump foi além e sustenta que a empresa rouba segredos comerciais e faz espionagem para Pequim. E foi em nome da segurança nacional que ele colocou a gigante chinesa das telecomunicações na lista negra, proibindo empresas americanas de fazerem negócios com ela. A empresa nega, diz que não obedece ao governo, mas a filha do dono já foi presa no Canadá.

Algumas empresas já obedeceram à ordem de Trump. No mês passado, a Google tirou o sistema operacional Android dos smartphones da Huawei, populares na Europa e na Ásia. O Facebook acaba de anunciar que deixará de pré-instalar seus aplicativos em aparelhos da empresa, isolando ainda mais a segundo maior fabricante mundial de smartphones. A empresa chinesa vem logo depois da coreana Sansung e está à frente da norte-americana Apple.

A China, por sua vez, começa a reagir. Na última semana, o governo chinês reuniu executivos das companhias americanas Dell e Microsoft e da sul-coreana Samsung, entre outros, para adverti-los de que qualquer redução de suas operações na China vai gerar represálias, segundo matéria do New York Times em que se baseia esse artigo. E se Trump tem sua lista negra, Pequim já estaria montando sua lista de empresas e indivíduos “não confiáveis”.

À medida que a relação comercial entre os Estados Unidos e a China desmorona, aumentam os temores em Pequim de que grandes empresas possam transferir a produção para outros lugares, afim de evitar riscos a longo prazo. O país também tenta evitar uma quebra rápida das sofisticadas cadeias de suprimento que conectam sua economia com o resto do mundo. A produção de uma vasta gama de componentes eletrônicos e produtos químicos, juntamente com a montagem de produtos eletrônicos, faz da China uma pedra angular das operações de muitas das maiores empresas multinacionais do mundo. Após a proibição da administração Trump de vender para a Huawei, várias empresas americanas reduziram suas expectativas de receita em dezenas de milhões de dólares.

Certo é que, na guerra comercial EUA-China, especialmente no front tecnológico, está se substituindo a colaboração pela competição. Se a estratégia é isolar a Huawey, o que a impede de continuar sozinha, criando sua própria tecnologia, independente dos parceiros do Vale do Silício? E, como dona da maioria das patentes, espalhar pelo mundo o sistema 5G, da tecnologia sem fio que viabiliza carros autônomos e a internet das coisas?

Ela vai gastar mais tempo, mas quem realmente perde com essa guerra, além de empresas e países? Ora, os perdedores de qualquer guerra, ou seja, pessoas: perde tanto o funcionário de uma empresa americana na China quanto um fazendeiro de Montana, que não terá sinal de internet. Este último usa equipamento da Huawei, que produz tecnologia sem fio mais barata e fornece para um quarto das pequenas operadoras americanas.  

Ninguém duvida que as bravatas de Trump, por mais que pareçam boas para a atual economia americana, estão saindo do controle. Ao apostar em um cerco que ataca diretamente as ambições tecnológicas chinesas, os EUA podem colher um efeito contrário. A Huawei estocou muito componente importado, justamente para evitar uma ruptura na sua cadeia de fornecimento. E ninguém duvida que ela tenha avançado na criação de um sistema operacional próprio, em substituição ao Android. Para alguns pesquisadores, as sanções dos EUA podem inclusive acelerar a autossuficiência e vanguardismo dos chineses no setor tecnológico.

Ou seja, ela pode chegar onde quiser. Mesmo sem os americanos. E o resto do mundo. 

Editora do site Novos Inconfidentes, é formada em Comunicação Social pela UFMG, trabalhou na revista Isto É e no jornal O Tempo e colaborou como cronista e redatora em várias publicações. [ Ver todas as publicações ]

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